A casa própria, você poderia pensar. Mas não é. Eu queria um Simpósio. Ou melhor um grande Congresso. Mais ainda. Eu queria uma ANPOCS. Só pra discutir a situação do glorioso e magnífico São Paulo. Futebol Clube. O [Lipp13] [São Paulo - SP] poderia abrir com uma palestra:
O tricolor entrou com garra e PERDEU os jogos ontra Botafogo e Goiás. Se não será campeão sai de CABEÇA ERGUIDA, pois LUTOU! ao contrário do timeco da marginal sem numero q entregou o jogo p não ajudar seu maior rival... Mas o que ocorreu hoje é o retrato mais perfeito do q eu pensava desde o início de campeonato: o São Paulo tem condições de lutar pela libertadores, mas pra ser campeão precisava mostrar: 1 - mais criatividade na armação 2 - mais consistência na defesa, o Rodrigo já errou muito em momentos cruciais, e o Renato Silva é fraquinho demais (a defesa, nos ultimos 2 jogos sofreu 7 GOLS!!! ABSURDO) 3 - Mais sangue frio: muitas expulsões tolas durante o campeonato, muitos gols perdidos de bobeira. 4 - O que é um elenco forte? pq a zaga fica um lixo quando nao tem André Dias e Miranda jogando juntos??? Ou então porque Dagoberto e Richarlysson fazem tanta falta? Td tem um lado bom, mas um hepta poderia camuflar tantos problemas. 2010 tem q haver renovação!!
E no blog do Juca, uma discussão sobre o Corinthians ter entregado o jogo. Eu não achei não. E vi inteiro. O juiz foi muito, muito mal. Teve um momento *a loca* e deu meia dúzia de cartões amarelos pros corinthianos. E o Felipe ficou realmente parado na hora do penâlti. Mas é porque ele tava PROTESTANDO. Ele ficou super nervoso com a marcação. E aplaudiu querendo dizer "juiz ladrão". 48 min do segundo tempo, ele nem tentou pegar. Porque tava puto. O juiz irritou bastante os jogadores. Bastante. Como é super comum, inclusive. O momento corpo mole do jogo foi o gol que o Defederico não fez. Aí no blog estão dizendo que o ruim de pontos corridos é isso. Que adversários entregam o jogo etc. Mas aí, né? É um jogo. Sorte tem a ver. Sorte do Flamengo pegar o Grêmio, tendo o Inter no calcanhar. Sorte do São Paulo pegar um rebaixado. E assim por diante. Outros mil jogos aconteceram. Agora querer que o Corinthians faça o jogo da vida é um pouco demais, né? Mesma coisa o Grêmio. Etc.
O São Paulo. Ai. Fiquei triste. Super triste. Porque tava super fácil etc. O nível do campeonato brasileiro é muito ruim. Tava lendo que estavam esperando que o campeão juntasse 75 pontos. Passou longe. Como os times são muito ruins, a organização são-paulina sempre se sobressai. Isso é bom porque a gente sabe que há uma estrutura vencedora que não depende de jogadores. Mas ao mesmo tempo embaça demais a visão das coisas. O time não tá bom. Já não estava bom no ano passado. E como vence o maior campeonato nacional com relativa facilidade, acaba não fazendo as contratações necessárias etc. Concordo demais com quem diz que o clube não tá mais revelando ninguém. Não tá legal isso. E acho que precisa de um craque, ué. Não acho que o Hernanes é essa goiabada toda (embora ela seja bom). O Dagoberto é aquele ídolo de torcida mas também não é meia-atacante dos sonhos. O Corinthians fez isso de contratar ex-craques. E claramente o Ronaldo não dá conta de campeonato longo e eu não sei o que será do Roberto Carlos. Mas são craques. Então não sei o que deve fazer o São Paulo. O Flamengo tem dois craques (Adriano e o Petkovic). Nós não temos nenhum. Esse time não dá pra ganhar Libertadores, isso que eu sei. Eu gosto demais do André Dias, mas a zaga fica perdida sem o Miranda. O Arouca não resolveu o meio-campo. O Marlos não resolveu. O jogador mais importante da equipe, pra mim, é o Jorge Vagner. Do Washington eu não sei o que falar. Porque ele faz os gols. Mas eu não confio. A gente teve atacantes históricos recentemente. Fica difícil. Eu sou acostumada com Luis Fabiano. Mas ao mesmo tempo não apóio isso que o Palmeiras fez. De trazer um caríssimo Vágner Love etc. Fica parecendo meio que desespero. E o craque do time é o Diego Souza. Ou seja. Comprar Washington pra toda a torcida continuar preferindo Borges? Não entendo. Daí que talvez seja mesmo a hora de não ser campeão. Não está tudo bem no Morumbi. Os outros times se habituaram a isso. Ser campeões no susto. Conosco não é assim. A gente faz o melhor futebol do Brasil. E que volte a ser assim ano que vem.
Fluminense \o/*
Eu nem vi o jogo todo. Porque fico muito tensa, sabe? E não acho bom. Eu tento mesmo trabalhar essas coisas. Porque, né? Daí fui ver o Coringão.E ah. Enfim. Eu não acho que a culpa é do juiz. Mas ele foi muito mal. Num jogo meio fácil de apitar. Porque eles nem queriam nada, os jogadores do Corinthians. Daí é bom que a arbitragem tenha sido ruim e pró-Flamengo. Não mancha título, se vier. Mas mantém la questã, né? Dos critérios dos árbitros e coisas assim. Eu nem sei quando as federações e confederações vão de fato olhar pra isso. E resolver e blá.
*Ah, sim. Eu acho que o São Paulo vai querer comprar o Fred etc. Só pra variar.
Como em todos os posts sobre futebol. Lembre-se. Eu raramente estou interessada na sua opinião. Então, caso não tenha certeza da relevância, NÃO COMENTE.
Teve comemoração hoje aqui. Por conta do Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher. E me chamaram pra dar uma palestra. Foi um convite meio mambembe, sabe? Uma moça me ligou e me disse se eu podia. Ela é duma ONG super respeitada e séria. Que faz um trabalho aqui que eu admiro. Daí topei. Então ela me manda um e-mail pedindo os dados e me avisa que seria na Câmara Municipal. Pensei "fudeu". Eu tinha imaginado um evento com um pessoal que lida com violência e seria uma solenidade. Mas ok. Já tinha me comprometido. Aí chego lá e encontro várias ex-alunas de Serviço Social e Psicologia e fiquei mais aliviada. As meninas todas trabalhando com isso e contando que estavam tão felizes de me reencontrarem e blá. E eu brinquei com elas. Disse que quando vi que seria na Câmara me preparei pra escutar "em mulher não se bate nem com uma flor". E elas riram e tudo o mais. Mas aí começou. A chegar autoridade. E sentamos. E a mesa foi composta. E as autoridades falaram. Primeiro a chefe de gabinete da prefeitura. Fez um discurso impecável, contou a história do dia e das irmãs dominicanas. Aí falou a representante da OAB. Ela deu a impressão de estar improvisando e falou sobre as mulheres darem queixa e depois voltarem atrás. Então falou a chefe do DRADS. E ela falou sobre a agressividade humana como um todo. Então veio o promotor. E ele disse que a Casa Abrigo daqui não está funcionando e que isso faz com que o poder público não tenha condição de resolver efetivamente a situação da mulher em risco. Falou também que a Lei Maria da Penha não diminui a violência e que isso é culpa da própria mulher. E afirmou que as coisas só irão mudar quando as mulheres forem substituídas no processo. Pelo que eu entendi, isso significa que uma vez dada a queixa, o processo corre, independente da mulher querer ou não manter o que disse. Mas ele mais encheu o saco do Executivo por conta da Casa Abrigo. Daí veio falar a juíza da cidade. E ela explicou a Lei Maria da Penha e discordou do promotor e eu não entendi bem o motivo. Aí falou o vereador. Que é algo folclórico. E ele disse pro promotor que a Casa Abrigo vai voltar a funcionar a qualquer instante e emendou falando que é um absurdo esse tipo de violência e pasmem. Encerrou com "em mulher não se bate nem com uma flor". Me arrependi de ter comentado com as ex-alunas. Que voltaram a ser alunas na mesma hora. E a gente sabe. Que aluno não vale nem o batizado. Daí veio a secretária do bem-estar. Veio fervendo, né? Pra cima do promotor. Mandou-lhe um data venia (juro por Deus) e deu uma aula pra ele. Sobre o funcionamento do CREAS e como há uma ONG e daí o trâmite como é. Ainda ressaltou que a luta é para que as mulheres voltem para casa, que aquele que não consegue conviver em sociedade é que deve sair. E fez um discurso feminista de primeira linha, reduzindo a pó de traque a excelência. Eu curti demais a fala dela. Falou tudo. Que o foco não é a família, é a mulher. Que o termo violência doméstica não é bom. E foi adiante. Eu sabia que ela é preparada porque ela que tocava essa ONG antes de ser chamada pra secretaria. É bem menina. Deve ter uns 10 a menos que eu. E é advogada, o que nos permitiu presenciar o data venia. Eu contei pra minha irmã e ela disse que eu tava tonta. Que o papel do promotor é esse mesmo. Cobrar essas coisas. Mas eu não sei explicar. Mas sabe quando a pessoa está com os objetivos nobres mas você sente que derrapa demais na essência? O promotor não sacou ainda. Ele quer proteger nossas mulheres e nossas crianças. Uma coisa assim. A minha palestra foi um estouro. Eu me baseei principalmente num lance que vi no blog dela e coloquei umas imagens publicitárias que incitam a violência contra a mulher, que peguei aqui. E fiquei falando sobre construção do imaginário e panz. Daí todo mundo adorou e as várias representantes dos CRAS vieram falar e blá. Eu fiz super militante e raivosa e mezzo debochada a palestra. E acabei sendo convidada pra dar um curso de capacitação e mais duas palestras. O que é engraçado porque nem é meu tema esse. Mas dá bem a medida de como as pessoas no front não tem a base teórica necessária. Pra elas mesmo. Daí as várias meninas* vieram dizer que estavam precisando ouvir essas coisas e que a Casa Abrigo é importante mas que não resolve tudo. Que já trabalharam com a Casa Abrigo funcionando e que não muda tanto. E daí todas falando de imaginário. Que tem que combater o imaginário mesmo e tals. Eu gostei tanto dessa reação porque o que a gente mais ouve é "vai lá atender as vítimas pra ver se cola esse papo de imaginário". E super colou. As pessoas que lidam com isso acabam se sofisticando, né? Porque é narrativa o tempo todo. Senta que lá vem história. Daí eu disse que tinha vontade mesmo de formar um grupo que discutisse gênero e feminismo na cidade. E falei que elas são o movimento feminista da cidade. Elas ficaram TÃO contentes com essa informação. Nunca pensaram que eram. Veja você, eu aqui estudando o que elas fazem e elas sem saberem que fazem. Essas ciências sociais inventam mesmo, tinham mais é que se mancar. No fim parece que ficou acertado que eu vou lá ensinar todo mundo a ser feminista. Avante, soldados, para trás.
*São meninas mesmo. Em todas as unidades. Todo mundo com menos de 30.
Eu adorei isso aí tudo. Eu nunca pensei que pudesse contribuir com o movimento. Sempre que eu olho pra ele é pra entender funcionamento e tal. E nossa. Que bom vou tentar ajudar.
Ah, sim. Nos comments acho q apareceu. Qualquer um pode protestar contra o presidente do Irã. Contra a visita é que não pode. Eu tava pensando mais na manifestação dos deputados mesmo. Que foi o que me encheu.
E não protestar aleatório também. Mas por conta de. Do que ele fala do holocausto, da forma que encara homossexualidade. Que nem protestar contra o Bush. Por conta de como ele posicionou em relação ao tratato de Kyoto. Por mentir na guerra do Iraque. Apenas EVITE protesto aleatório. Porque vira aquilo, né? Sou contra e não quero que pise aqui. Blá.
Porque eu preciso falar um negócio sobre o presidente do Irã. Eu não gosto dele. Considero o pior líder político em atividade no mundo. E se eu fosse presidente, evitaria recebê-lo. Mas, entretanto, porém e todavia. Ele É o presidente do Irã. O Brasil não é rompido com o Irã. Ele é mais do que legítimo. Ele não é líder de facção. Então não existe um argumento CONTRA recebê-lo. Existe o lance de não gostar dele. Convenhamos. A nível de. Não é nada.
Como também não protestaria nunca e jamais na visita do Bush. Que eu me lembre o governo de SP derrubou uns barracos que estavam no trajeto dele. Então aí vale. Protestar pelo barraco derrubado. Pela visita, não.
Há, claro, a opção de ser contra a política internacional do Lula. E achar que o Brasil deve romper com o Irã. Há tudo isso. Mas uma vez que. Enfim. Tá claro o ponto.
Eu gostei tanto da Priscila hoje que nem tem como explicar. Eu adoro tudo que ela faz e é a minha favorita pra ganhar. Eu gosto da Dani, da Helen e do Diego também. Acho que todo mundo gosta deles. O Saullo, que falam tanto bem, acho uó. Pode parecer que eu adoro. Mas eu nem curto música romântica. Os jurados são muito estranhos. Hoje não entenderam nada. A Bonizzi, que já saiu, era uma super favorita pra mim também. Por conta de ser sofisticada. E cantar Noel e o Samba do Ernesto.A Taíssa eu adorava. Eu ia preferir que o público não votasse. Mas fazer o quê? Vota.
Eu tenho dó daquele sertanejo.
Pra mim era um programa de 6 mulheres e o Diego. Os homens foram muito mal escolhidos. Por esses jurados, diga-se de passagem, que agora ficam enchendo o saco.
Eu fico impressionada com a magia mesmo. Alguns fins de semana simplesmente funcionam. A despeito de todo excesso. De baixarias e etc. Tudo flui. Foi assim esse. Tudo deu certo. E ninguém queria que acabasse. Um café-da-manhã que começa às 8 e vai até 2 da tarde. Um show que começa às 17 e quando você percebe já quase amanheceu. Um almoço que vira jantar e faz com que a gente quase perca ônibus e aviões. Pessoas que eu conheço a tanto tempo e nunca tinha encontrado pessoalmente. E o encontro é absolutamente natural. Como se a gente tivesse se visto ontem mesmo. Pessoas que eu vivo encontrando e que nunca me canso. Sempre incrível. Ainda bem que eu tenho blog. Etc.
Eu acabei optando por um filme convencional. Talvez depois eu faça um mais conceitual.
Eu lembro que quando tava fazendo a fundamentação teórica da minha dissertação, citei um filósofo político (acho que John Rawls) dizendo que os movimentos sociais poderiam se tornar impraticáveis. Se todos quisessem participar diretamente da política, ele dizia, outras esferas da vida ficariam descobertas. Porque dá trabalho participar politicamente e a representação é importante por isso. Nos alinhamos, mas não participamos o tempo todo. Por absoluta falta de tempo, vamos dizer assim. O mais engraçado disso é que minha orientadora puxou uma flecha da citação e escreveu "pérola do pensamento liberal". Eu morri de rir porque ela sabia o que eu tava fazendo. Orientava o que eu tava fazeno. E mesmo assim se irritava. Passou-se o tempo e eu continuei discordando do filósofo. Eu acredito que é possível, sim, que a gente participe politicamente e continue fazendo as outras coisas. E deixamos a parte técnica para quem trabalha com política, mas podemos nos posicionar sem colocar em risco as atividades econômicas ou quaisquer que sejam. E a gente nota com a internet que as pessoas tem uma sede de posicionamento. Todos querem realmente participar politicamente. Principalmente em relação a temas "pós-modernos" e "pós-ideológicos". A gente percebe claramente aquilo que o Maffesoli chama de transfiguração do político. Das pessoas preocupadas, principalmente, com assuntos cotidianos. Como o assunto é cotidiano, geralmente a solução também é. Soluções extremamente bem intencionadas mas muito simplistas. Eu digo isso, não o Maffesoli. Que vê um novo momento nessa transfiguração. Eu digo isso porque participo de três listas feministas/lgbt. E sigo uma pá de grupos/pessoas engajadas nessas causas. E a enquete do Senado tava me deixando irritada e agora apenas perplexa. No site do Senado, a pretexto de interação, imagino, há uma enquete que pergunta. "Você é a favor da criminalização da homofobia?". E aí você vota SIM ou NÃO. E na minha timeline aparece o tempo todo alguém dando o placar. E pedindo pra eu e demais pessoas votarem. E as listas que eu participo (algumas super paradas), de repente, panz. Um monte de email pedindo pra gente votar começou a aparecer. Eu acho tão equivocado esse pedido. Porque simplesmente legitima a enquete. Dá a impressão que o movimento LGBT a considera como parâmetro para lutas e exigências. Eu, se fosse me posicionar diante disso, pediria que o Senado retirasse a enquete do ar. Não acho que seja uma boa idéia MESMO submeter à consulta popular a questão dos direitos LGBT. Ainda mais considerar uma enquete metodologicamente idiota para isso. Estamos falando de direitos mais profundos e acordados em outras bases. O direito das minorias, me parece, é garantido por conta de outras discussões. Nós vimos a Marcha para Cristo juntar 3 milhões de pessoas para nos mostrar exatamente isso. Somos maiores que a sua Parada Gay. Ou alguém vai me dizer que Cristo precisa de visibilidade? A intenção de quantificar interessa, ao meu ver, o outro lado. Os homofóbicos. Porque nós somos uma minoria. Ao mesmo tempo, a enquete do Senado foi fraudada. Eu acho que isso também é uma espécie de manifestação política. Tanto quanto votar. Há pessoas claramente dispostas a elevar o significado da enquete. Apareceu, também, uma reação gay à fraude. E consistia em ensinar a limpar os cookies do computador para a mesma pessoa poder votar mais vezes. As duas práticas são eticamente condenáveis mas revelam o grau de envolvimento dos participantes. Uma outra teórica (que eu também não lembro o nome) diz que os movimentos sociais não existem. Há uma série de práticas que são agrupadas por sociólogos e recebem o nome. Então várias frentes de luta contra a homofobia são embaladas e a gente escreve em cima MOVIMENTO GAY. Não necessariamente estão concatenadas ou sequer visando o mesmo objetivo. Claramente o pessoal do vote-na-enquete está engajado no combate ao preconceito. Mas, claramente também, eles estão prestando um desserviço a uma luta que é mais antiga que enquetes e que tem bases que foram fundamentas depois de muito suar. O movimento buscou legitimação, por exemplo, na OMS. Que retirou homossexualidade do rol de doenças depois de uma longa batalha. A OMS é legítima?, você pergunta. Fez-se legítima por conta do rumo que o movimento gay tomou. Foi uma frente, vamos dizer assim. Eu não sou especialista em movimento gay e não sei todas as frentes em que ele procura atuar. Ao mesmo tempo lembro isso aí. Que talvez nem exista movimento gay como os sociólogos queiram. Mas não é a primeira vez que eu vejo a tentativa de se posicionar politicamente ser totalmente apatetada aqui na internet. Pra mim é tão óbvio que devemos deixar a enquete onde ela está e JAMAIS deixá-la subir. E o que eu vi foi um movimento de levantamento da enquete. Como eu já expliquei. Pessoas bem intencionadas fodem toda uma estratégia por se utilizarem de táticas equivocadas. Me dá um pouco de febre isso.
Outra coisa, esse caso da UNIBAN. Tem um filme chamado Ruth em Questão que é meio fundamental, eu acho. Porque a tentativa de politização desorganizada tende a essas coisas. De personificar as causas e simplificá-las etc. No filme, essa tal de Ruth resolve fazer um aborto. E grupos feministas a transformam em ícone da causa. E aí grupos cristão a convencem a não fazer. E a transformam em ícone pro-life. E a Ruth caga e anda e cada hora fecha com um grupo, mediante os benefícios que cada um deles oferece. As pessoas sofrem com as decisões políticas. Mas não necessariamente elas politizam suas próprias decisões. Esse Geicy em Questão no caso UNIBAN é sintomático. Rapidamente estavam falando da moça e sobre ela e esperando coisas dela. Não vai rolar. É preciso perceber que há ganhos individuais com a manutenção das desigualdades e dos preconceitos. O tal do patriarcado é muito bem azeitado e recompensa as mulheres que vivem sob ele. Daí claro que a Playboy faz parte dessa engrenagem. Ela recompensa o indivíduo e zomba da luta. Com tudo é assim. Gay que se comporta é recompensado. Negro que se comporta é recompensado. Maravilhoso livro do Tom Wolfe sobre isso. Um Homem por Inteiro. Mostrando o quanto ganha um negro comportado em Atlanta. Permitem até que ele frequente o mundo dos brancos. E assim por diante.
É sim muito repetitivo tudo isso. Mas o twitter tem esse outro problemas. Ele é bem totalitário quanto a assuntos. Homogeiniza mesmo.
Um exemplo bom dessa transfiguração do político. Enquete do Senado e moça da UNIBAN bombando. E ninguém quer saber da condenação da Erundina. A "velha" política não interessa mesmo.
Eu gosto muito de foto de ingresso. Mas muito mesmo. Se tenho chance, fotografo. Cinema. Teatro. Festival. Procuro digitalizar minhas emoções, você bem sabe. Mas essa foto aí, hein? Tá mal batida demais da conta*. Mesmo assim, ilustra. Um clássico do mês de novembro. Yeah. Festival de rock metido a besta n*a* capital. Vou lá ver, né?
*Não fui eu que bati não. Não vou dizer quem foi. Por que, né?
Você nem pode imaginar. Há rock'n roll. Mas há mais. Meu cupom foi sorteado. Veja você. Eu ganhei a promoção "Café da Manhã com @fatorell". Assim. Com direito a acompanhante. Não sei se permitem que a gente registrem o evento. Por via das dúvidas, passei a tarde no cabeleireiro. Não tô pensando em foto não. Vou tentar driblar a segurança e fazer um filminho.
Eu curto tudo que patrocina festival indie. Curto cigarro (free), bebida alcóolica (campari), internet (terra). Só celular (tim) que eu não curto.
As manifestações a respeito da nudez da Fernanda Young na Playboy. Tudo machista. #ficaadica. Perca a piada. Não há nada demais nisso. De hora em hora você faz uma piada, se quiser. Pule alguns assuntos. Simplesmente deixe passar. Etc.
"A visão do Brasil que está em "Tristes Trópicos" esquentou meu coração"
Caetano Veloso relembra como o pensamento de Claude Lévi-Strauss repercutiu em sua música
CAETANO VELOSO ESPECIAL PARA A FOLHA
Nosso movimento, que queríamos chamar de "som universal", terminou ganhando o apelido de "tropicalismo" por causa da instalação de Hélio Oiticica que Luiz Carlos Barreto achou parecida com minha canção.
Foi Leon Hirschman quem, tendo visto na casa de um amigo um volume de "Tristes Trópicos", pensou que um livro com esse título deveria interessar a um dos criadores de tal movimento, ainda mais que se tratava de um que gostava de ler livros filosóficos e teóricos.
Ele simplesmente roubou o exemplar da casa em que o encontrou e me deu de presente. A palavra "estruturalismo" estava aparecendo em textos de jornais e em conversas. Eu vagamente sabia que o nome de Lévi-Strauss estava ligado a ela.
Abri o livro com uma curiosidade moderada. E fui tomado de um interesse intenso a partir das primeiras frases. "Tristes Trópicos" me arrebatou. Eu era fã de Sartre. Nunca esperei que uma inteligência de ordem tão diferente, mesmo antagônica, se impusesse com tanta rapidez sobre meu espírito.
O estilo (eu nunca tinha lido Proust) também me impressionou: a calma dos parágrafos longos e entremeados de observações secundárias que só lhe aumentavam a clareza era educativa, agradável e elegante.
Mas foi a visão do Brasil que apareceu ali que esquentou meu coração.
Um pessimismo relativo à civilização brasileira (mitigado pela bela passagem sobre a USP, em que "num claro instante" pode tornar-se possível uma intervenção relevante nos destinos do mundo, por parte de um bando de jovens paulistas inocentes -mas agravado pela incompreensão total do que seria Oswald de Andrade ou a possibilidade de um modernismo brasileiro que contasse além da repulsa que a suposta beleza do Rio causava no autor) contado paralelamente às descobertas sobre as culturas pré-cabralinas, ensinava novos modos de sentir-se o estar no mundo aqui.
Mais do que tudo, aparecia um homem excepcional: sempre modesto, ele mantinha um tom franco e inabalavelmente lúcido. Os esboços das posições originais que o tornariam mais e mais célebre apareciam com vigor, mas sem paixão.
Cheguei a escrever, alguns anos depois, para meu governo, que fazia sentido que, em oposição ao ateísmo apaixonado de Sartre, surgisse uma espécie de misticismo frio.
A profecia de que o Islã nunca seria a religião da tolerância que se pretendia (culminando numa impressionante comparação das figuras de Maomé e Buda) repercutiu em mim de modo indelével. Assim como o horror ao "eu" cartesiano, embora a racionalidade que ele sempre manteve nunca pudesse ser abalada, fosse pela "confusão entre sujeito e objeto" dos existencialistas (seguindo Husserl), fosse pela dialética hegeliano-marxista (que os existencialistas franceses terminaram por abraçar).
Marx e Freud eram, para ele, antes exemplos de pensadores que percebiam realidades inteligíveis em planos escondidos. Enfim, se há alguns livros que ficaram acesos em minha memória desde que foram lidos -e para sempre-, "Tristes Trópicos" é um deles.
Por causa disso, li "O Pensamento Selvagem" (em Londres, em inglês, porque os donos da casa que aluguei tinham esquecido justo um exemplar dele na estante vazia), depois "O Cru e o Cozido". A polêmica com "Crítica da Razão Dialética" no primeiro e os argumentos contra a música atonal no segundo são trechos a que voltei inúmeras vezes através dos anos.
O texto sobre a música sempre foi especialmente instigante para mim. Considero aquilo um momento altíssimo na história do entendimento do que seja a música. Ali também estão embutidos argumentos anti-modernismo e anti-arte de vanguarda a que ele se apegou nas últimas décadas. Sinto uma natural desconfiança dessa inclinação, mas acho estimulante que algumas problematizações não fossem evitadas.
Amo a resposta que Augusto de Campos me deu quando lhe reportei a impressão que me causaram tais argumentos: "São muito inteligentes, mas quem levou a música para além do tom foram os músicos, os melhores entre eles -e eu confio mais em quem está com a mão na massa". Mas aconselho qualquer um a passar primeiro pela "ouverture" de "O Cru e o Cozido", relembrar a frase de Augusto e depois tentar pensar por conta própria.
Lévi-Strauss detestava a promiscuidade entre alta cultura e cultura popular que via sendo praticada por seus famosos contemporâneos mais jovens: "pop philosophie", pensadores citando Bob Dylan e escrevendo sobre cinema, linguistas estudando letras de rock -na entrevista com Didier Éribon, ele diz que jamais voltaria seu armamento teórico para nada abaixo de Baudelaire.
Eu o citei nominalmente numa letra de música (numa entrevista em que lhe perguntaram sobre a citação em "O Estrangeiro" -"O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara: pareceu-lhe uma boca banguela"-, ele disse, meio rindo, que tinha escrito essas palavras havia muito tempo); citei-o indiretamente em pelo menos duas outras: o "num claro instante" de "Um Índio" (diretamente do texto sobre a USP) e "amor-mentira" de "Tem que Ser Você" (aprendi com ele que os nhambiquara chamam os atos homossexuais praticados pelos jovens da tribo de "amor-mentira").
Ele possivelmente não gostaria de se ver citado por um músico pop. E brasileiro. Vai saber. Ele cultivava um certo amor pelo Brasil, a terra onde suas descobertas inaugurais surgiram, onde seu trabalho de etnógrafo fez possível suas investidas teóricas e mesmo filosóficas. Mas o título do seu primeiro livro não é tão carregado de ternura quanto de desprezo e desesperança (e aqui me lembro de uma quarta citação que fiz dele em canção: a observação, em "Fora da Ordem", de que "aqui tudo parece que é ainda construção mas já é ruína"): o Brasil é figura grande na geografia de "Tristes Trópicos", mas está incluído numa visão sombria que cobre toda a zona tropical ao redor do globo.
Eu o vi uma vez na BBC falando inglês excelente com perfeito sotaque francês e exibindo um caleidoscópio para ilustrar sua ideia de estrutura e do número finito de possibilidades de arranjo coletivo do homem. Ele tinha uma cara muito bacana de judeu bondoso mas irônico, uma maravilhosa cara de quem tem vocação para a longevidade (coisa de que ele antes se queixava com modesta ironia, mas que a mim me parece uma virtude). Em suma, eu gostava dele. Gostava de pensar que ele, tão distante e tão próximo, estaria ainda sempre por aí, como minha mãe e Niemeyer, o que me dá uma espécie muito tranquila de saudade.
Peço desculpa aos estudiosos sérios por tratar com tamanha familiaridade uma figura tão respeitável. Mas peço essas desculpas por causa do carinho que sinto e sempre senti por ele. Mesmo no seu grande esnobismo contra o esnobismo de massas.
Com ele que mudou tudo. Acho tão bonito o Le Monde ressaltar que o etnólogo morreu. Mas a verdade é que ele levou a Antropologia até onde ninguém imaginava. Toda vez que alguém fala de antropólogo imagina alguém com sofisticação de pensamento, olhando pra onde ninguém mais olha, vendo o que ninguém mais vê. No livro dele A Oleira Ciumenta ele começa falando sobre isso, mas das outras profissões. Ele diz que tecelões eram vistos como ladrões e lenhadores como bêbados e que era comum as sociedades fazerem isso. De pegarem dois sistemas nada a ver e estabelecer simetria. Que nem a gente faz com horóscopo, acho. Quem nasce em abril é assim. Quem nasce em janeiro é assado. E na Europa e em outras culturas é comum fazerem isso com profissões. E ele mudou pra sempre a simetria que se faz do antropólogo. Ninguém intelectualizou tanto a Antropologia. Fez mais. Deu guarda-chuva pra todo mundo. Que passou a ser estruturalista, pós-estruturalista e que tais. Tive uma professora que dizia que era o cérebro mais privilegiado do século XX. Talvez o homem mais inteligente que já pisou por aqui. Eu fico aos pedaços, claro. O maior desafio da minha vida é ele. Amo o que entendo. Morro de vontade de decifrar o que eu não entendo. Nenhum intelectual vivo me causou tamanha reverência mesmo. Ele inventou o que eu queria ser, sabe? Ele construiu o campo de conhecimento das coisas que eu queria aprender. Sem ele minha vida teria sido tão mais pobre. Eu não saberia nem pra quais coisas ia querer olhar. O que um livro como Antropologia Estrutural faz com a gente? Muda a vida da gente. Um homem que traz Quesalid pro mundo. Que muda o jeito que a gente fala de crença. Que faz com que a gente sinta que não entende ao certo os mitos. Deixa a gente sem condição mesmo, uma notícia dessa.