The Time Has Come


 

Minha mãe ficou me contando ontem. O que acontece com os animais depois que eles morrem. E ficou falando sobre as diversas teorias. E que ela não acreditava em "evolução" nem nada. Tipo que um cachorro volta pessoa etc. Que gatos seriam sempre gato. E que meu pai podia sim, estar esperando a Bibi. Mas me falou que a Bibi tem os laços dela, né? E então o reencontro é sempre maior do que a gente pode imaginar. Meu pai não conheceu a Bibi. Daí ela falou sobre essas orientalidades e que os gatos protegiam a gente e que a Bibi poderia, também, ter se sacrificado para que uma coisa ruim não acontecesse com alguém da nossa família. Minha irmã ficou fuçando uns sites. E parece que o Chico Xavier teve o mesmo cachorro duas vezes. Reencarnou e voltou pra ele. Daí eles explicam que animais reencarnam muito rapidamente. Entre 3 e 6 meses. E é muito comum que voltem. E a gente reconhece, eles explicam. Quando vê, reconhece. Não adianta ir atrás, o animal que nos procura. Eu gosto demais desse papo. Porque é o papo da minha família, desde sempre. E é a nossa forma de lidar com o luto. Ninguém conseguiu parar de chorar ainda. Estamos naquele momento mesmo, de ficar todo mundo na sala conversando sobre e tentando se distrair com outras coisas. Internet me distrai. Minha mãe vê TV. E jogo de futebol me distrai também e eu adoro que a Inter de Milão jogou hoje etc. Embora eu tenha torcido pro Bayern de Munique. O Zulu é que tá dando pinta de estar mais deprimido. E eu acho que ele é o único que sabe que ela morreu. Porque ele chegou a vê-la e tentou cavar onde ela está enterrada. A gente tinha colocado umas pedras. Mas a terra ficou úmida, porque tivemos que lavar o jardim. Por conta do sangue etc. Daí eu tirei as pedras ontem. Porque achei melhor. Sei lá. Eu tô meio embirutando em volta do túmulo da Bibi. E eu contei pro meu irmão mais velho. Aquele que se casou. E ele começou a chorar também. E fez uma pergunta que não saiu da minha cabeça ontem. Você cobriu ela?, ele perguntou. E eu não cobri. Coloquei a Bibi direto na terra. E aí me bateu isso, de que deveria ter coberto. E fiquei com imagens péssimas vindo. Dos pêlos dela entrenhados na terra e essas coisas. Queria cobrir. Daí o Zulu. Ele gosta de dormir dentro do meu guarda-roupa. Mas agora não tem saído do guarda-roupa praticamente. E tá fazendo umas coisas que não costuma. Tipo tomar sol e ficar deitado no quintal. Ele some, sabe? Ele passa o dia todo fora e aparece e vai pro quarto que tiver alguém. E fica roçando a cabeça. Tipo uns 10 minutos de carinho. E aí ele some de novo. Mas ontem e hoje ele ficou deitado no quintal ou dentro do guarda-roupa. E não tava comendo e aí minha irmã deu aquela ração de lata pra ele. Uma meio molhada. E ele adora e comeu. O caso é que minha mãe disse que ele pegou a energia da Bibi. Que passou pra ele. A Marina tava aqui hoje à tarde e quis saber mais. E minha mãe explicou pra ela que a gente morre e nossa energia é liberada para a atmosfera ou para algum ser vivo que está próximo. E que o Zulu tá fazendo coisas que a Bibi fazia porque tá vibrando na dela ainda. A Marina quis ler as coisas que minha irmã tinha imprimido sobre a reencarnação dos animais. Eu fiquei pensando nessa coisa das origens mesmo. E que daqui uns 30 anos, a Marina vai estar sozinha em algum canto do mundo e vai ser cética e atéia como as pessoas inteligentes são. Mas vai pensar nisso, quando perder um gato. Que ele vai reencarnar em 3 meses. E vai ficar quase aliviada antes de pensar "mas que bobagem". Ou talvez ela conte pra alguém. Sobre a minha mãe que ensinou pra ela que... E vai dizer que a tia acreditava em cada coisa. Eu gosto demais da minha mãe. Ela acredita muito no amor, sabe? E todas as grandes tristezas, ao lado dela, se transformam em mais amor. Em mais união. Estamos sempre todos na sala, chorando abraçados. E pensando em coisas transcendentes. Tipo na sensibilidade do Zulu de conseguir absorver a energia da Bibi. E tudo parece melhor. E maior e transcendente. A gente vai no cinema agora. Vamos assistir Chico Xavier porque, né? Nada mais pode ser feito.



Escrito por Mary W. às 18h20
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Porque agora tá frio. E eu tava deitada com o edredon mais gostoso do mundo. Daí ela entra dentro do edredon, do meu lado. E eu fiquei até preocupada, achando que ela ia parar de respirar. E ela ficou lá. Até que o Nonô viu que tinha coisa estranha naquele edredon que se mexia. E ela andava de um lado pro outro, toda coberta. Eu tinha que fechar a porta do quarto, às vezes, quando ela era pequena. Porque ela simplesmente não me deixava dormir. Tchau, Bibi, só amanhã. E ela ia fazer outra coisa. Porque ela era extremamente meiga. Mas, muito, muito independente. Minha mãe diz isso dela, e é a pura verdade. A favorita de todos e nunca se metia em nenhuma confusão, ali, no meio da sala. Vendo os quatro se atracando. Ela girava o pescoço devagar, fazendo q pra todos eles. De manhã a gente via tufos e mais tufos de pêlos brancos pelo carpete. Isso indica que, talvez, ela mudasse de ideia em algum momento. Ela gostava tanto de terra que se enfiava nos vasos. E eu saía com ela pro jardim em frente de casa e ficava um tempo ali, enquanto ela se sujava toda. Minha mãe comprou uma caixa de grama pra ela. Daí ela só dormia ali. Então ela aprendeu a subir no telhado e foi um inferno. Você tem que ver o telhado da minha casa pra saber. E ela não sabia descer. E então a gente ia pro sotão e ficava chamando. Tem um vitrô no sotão. E ela aparecia ali e havia uma tábua e a gente segurava a tábua colada no vitrô. E ela ameaçava, se sentia insegura. E tateava. E enfim subia na tábua e descia as escadas correndo. A Tonton teve um machucado muito grave na cabeça. E não sarava nunca. E ela coçava. E um dia a Bibi apareceu com o mesmo machucado. O veterinário queria que virasse tese isso. E a gente não sabe se a Tonton que machucou ela. Ou se ela imitou a Tonton. Daí colocou cone. E ela odiava. E eu levava ela pra minha cama e tirava o cone e deixava ela se lamber e ficar um pouco à vontade. Daí ela ia coçar. E eu colocava o cone. Ela sarou rapidamente e nunca mais se coçou. A Tonton se coça até hoje. Ela foi atacada quando era ainda um bebê, por outro gato, e quase morreu. Mas ela não morreu. E ficou tão e tão bonita e ela era um desses animais tão especiais que todo mundo ama. Eu tinha medo que roubassem ela. O veterinário disse que as orelhas dela eram brancas demais e que ela tinha que passar protetor solar. Ela ficava doida quando passávamos. Ele explicou que ela poderia ter câncer de pele e ter que amputar a ponta da orelha. Mas que não era sofrido nem nada. Então ela andava por aí, sem protetor. Mas eu tinha medo que ela ficasse doente por isso. Ela gostava tanto do telhado que aprendeu a descer pra rua e ir pro jardim sozinha. E adorava um terreno baldio aqui do lado. Era muito fácil colocá-la pra dentro. Ela nunca ia longe e nunca resistia. Eu cheguei em casa mais cedo hoje. Porque tá tendo festa do peão e então não tem aula. Eu jantei e ela estava cozinha, comendo também. Daí eu sentei pra ver um capítulo dessa novela. Minha irmã saiu pra guardar o carro. Ela estava no telhado da frente. E minha irmã falou com ela. A respeito dela ser tão rápida. Estava na cozinha e agora já estava no telhado. Guardou o carro e foi buscá-la. Daí eu ouvi minha irmã gritando. Eu não entendi direito. Mas sabia que era um deles. Daí ela gritou de novo. E eu ouvi. A Bibi morreu. Ela foi atropelada. Minha irmã estava com ela no jardim. Eu fiquei lá dentro pra que os outros não vissem. Fechei todo mundo em cômodos aleatórios. O Zulu também sabe sair pelo telhado e acabou indo lá espiar, mas ela já estava embalada. Só ela e o Zulu sabem sair. Aí eu chorei. E então fui no vizinho ver se ele tinha uma pá. Não tinha ninguém em duas casas que eu bati. Festa do peão. Nisso minha mãe ligou pra vizinha de baixo. Ela tinha. Eu e minha irmã fomos buscar. Ela nos deu uma enxada também. Chorou junto. Ela é maluca por cachorros, sempre tem um monte. Aí nós enterramos a Bibi no jardim, né? Onde mais? E minha irmã achou que a gente só tinha que agradecer. Pela convivência e memorável companhia. E eu concordo. Ela tinha aquela especialidade, sabe? Que a gente chama de carisma. Ela era o xodó de todo mundo. Aí ficamos falando sobre ela. Tomando café. Chorando. Tentamos ver TV. No ponto, foi a minha mãe que tocou. É ruim demais tudo isso, claro. Mas no caso, dela. Meu Deus. Ela adorava simplesmente tudo. Ela mimava todas nós. Ela adorava comer. Ela adorava o jardim. Ela adorava sentir o frio da geladeira quando a gente abria a porta. Ela adorava os outros gatos. Ela adorava desfiar o sofá. Ela adorava dormir. Ela adorava acordar. A gente via o quanto ela curtia estar aqui, fazendo as coisas dela. Essa hora assim, eu costumo ir na cozinha. Pegar água ou outra coisa. E ela sempre estava no corredor. E ela nunca vinha até mim. Ela deitava de barriga pra baixo. E eu tinha que ir até ela. E passava o pé na barriga dela. E ela mordia meu calcanhar e dava por encerrado. Era muito difícil ela vir pedir carinho. Geralmente ela só sinalizava e esperava. Ela era uma dessas, sabe? Que acreditam piamente que só há amor no mundo. Confiava no próprio taco e agia como se estivesse concedendo uma honra mesmo. Gatos são assim, você vai dizer. Então. Ela era *a* gata.

Ela era muito branca. E muito peluda. E ela se esfregava na terra. Deitava de barriga pra cima. E não tava dando conta mais de se limpar. Vivia encardida. Meu veterinário é contra dar banho em gato. Por que?. Porque eles odeiam. Ontem eu e minha irmã conversamos sobre a possibilidade. De dar um banho na Bibi. Nosso veterinário não dá banhos. E levantamos a hipótese. Veja só. Ela nunca tomou banho. Fico tão feliz por isso.



Escrito por Mary W. às 01h13
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