Não há diálogo com pau de arara


Eu sou por fora e perdida. Tipo tem todo um pessoal anti-rodeio aqui, claro. E esse pessoal arranja formas de resistência. Porque é realmente avassalador. Comércio fecha, escolas primárias mudam horário de funcionamento. Faculdade não funciona. E o pessoal anti-rodeio se reúne em algum lugar. E eu me sinto anti-rodeio. E eu quase nunca saio de casa. Mas nessa época, saio. Só pra marcar presença contra a cultura sertaneja e o show do Chrystian e Ralf. Meu irmão caçula é poser. Tem cara de anti-rodeio mas tá lá. Fazendo cobertura fotográfica do evento pra por no site de balada. Mas aí que o povo anti-rodeio se comunica por torpedos. E se avisam e coisas assim. Pura guerrilha. E quem recebe o torpedo? Eu que não. O meu irmão caçula, claro. A caminho de Chrystian e Ralf. E me avisa. E eu nem sei onde coloquei meus Gitanes.

Porque a Xris falou. Ah, você põe emoticon de sorriso pra rodeio. Eu não ponho não. Tá me estranhando? Eu ponho emoticon de sorriso pra semana sem aula.



Escrito por Mary W. às 23h12
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Eu acho um pouco triste as pessoas que colocam cadeado no orkut. Embora eu entenda que privacidade é algo importante e sagrado. Mas serve aquele pensamento básico. Se você tem um orkut... Significa que vai compartilhar algumas coisas e tal. E o cadeado me faz sempre pensar que a pessoa se acha algo mais do que ela realmente é. Tipo oh, todo mundo tá me seguindo etc. Eu acho meio triste, então, um cadeado no orkut. Porque significa um sujeito que não tem a real dimensão da sua desimportância. Ver fotos das pessoas sempre foi um clichê da chatice. Foto de casamento. Foto de bebê. Foto do churrasco da turma. Olha, esse que é o fulano que eu te falei. Ninguém quer ver. Ninguém se lembra de você falando do fulano. E assim por diante. Pra dizer que é TRISTE alguém colocar cadeado num conteúdo que está longe de ser um tesouro e que a maioria só acessaria se ganhasse dinheiro pra isso. Ok. Mas isso não é nada. Perto de uma bizarrice que eu só descobri recentemente. Sabe Twitter? Então. Tem gente que põe cadeado no Twitter. Continua triste. Mas ganha uma dimensão de PATÉTICO inimaginável em outros contextos. A idéia do Twitter é trocar frases desconexas e sem importância. Coisas que NÃO importam. E a pessoa vai lá e coloca cadeado. Você, que quer tanto ver minhas fotos, agora está interessado em quantas gotas de adoçante eu coloco no café. O caso todo é que isso parece apontar pruma espécie de fenômeno contemporâneo. Que deve ter a ver com a exposição do cotidiano, que os realities shows consagraram. Mas tem a ver mais, eu acho, com a explosão dos livros de auto-ajuda. Que priorizam mesmo um lance de marketing pessoal. Você é um campeão, se pensar como um campeão. Pense magro e emagreça. E assim por diante. Uma idéia disseminada de que a maneira como você se vê influenciará definitivamente a forma que o mundo te vê. O que não é verdade. Você se achar bonita não te faz bonita. Porque a beleza segue padrões que estão além de você etc. Eu imagino que essas pessoas que põe cadeado* em tudo quanto é canto acabam refletindo essa tendência ao individulismo exacerbado, que o Zuenir Ventura explicou tão bem ontem no Uol. Quem merece ser protegido? Sei lá. Uma rainha merece. No seu planeta, você é a rainha. Então você se protege, se escolta. Enfim. Não vou poder terminar esse blábláblá. Tô no trabalho ainda e atrasada. A Marina está me esperando. Vamos no parque de diversão às 5 horas. Começou o rodeio por aqui :)

Tem cadeado no Last FM? Seria ge-ni-al se tivesse.

*Acho que a psicanálise pode ajudar aqui também. Com o lance do simbólico. Cadeado, trancar etc. Eu penso que, pelo menos, intestino preso essas pessoas do cadeado têm.

 



Escrito por Mary W. às 16h49
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Hé. Primeira vez na minha vida que meu blog é blog da semana. Juro por Deus. Nem em Weblogger, nem em Blogger. Nunca tinha acontecido comigo.

 

Pra comunidade internacional (sic). E pra mim também. Era muito importante ter a Marina Silva no governo. Eu sempre pensava. Bem, se a Marina ainda está lá, não pode estar tão ruim assim.



Escrito por Mary W. às 18h53
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Christiano Jr e outros

Tem um órgão do DCE responsável por cultura. Tipo é uma coisa da UNE. E tem aqui. Chama-se CUCA. E a diretora do CUCA me procurou no começo do ano. Porque ela queria fazer uma espécie de semana afro em maio. Pra comemorar o dia 13. Eu disse ok. A idéia dela é que cada curso resgatasse uma prática africana dos tempos da escravidão e a gente montaria uma feira. Daí o curso de Pedagogia pesquisaria a respeito das práticas educacionais na senzala. O curso de enfermagem a respeito de cuidados. E assim por diante. Daria muito trabalho. E eu vejo um problema. Que é o de associar sempre à escravidão a cultura africana no Brasil. Mas também é da história e, no mais, o DCE pediu minha ajuda e não minha opinião. Daí teve a reunião dos coordenadores, pra definir calendário de atividades. E eu fui. Enquanto diretora de arte e cultura. E apresentei o calendário do CUCA. Que tinha desde aquele concurso de foto. Até essa semana afro e festa junina. Quando eu falei disso, o coordenador de história foi no teto. Uma outra professora, também de história, me olhou como se eu fosse retardada. E começaram a me explicar coisas. Tipo que o 13 de maio era uma data branca. E que o movimento negro tinha escolhido outra data pra comemorar. A tal semana da consciência. E eu tentei dizer que isso tinha sido num primeiro momento e que a data tinha sido reapropriada. E que o movimento tinha tomado as rédeas da comemoração e que isso que fazia a diferença. Nem adiantou. Eles se entreolhavam, rindo, descrentes. E murmurando coisas como "que horror, querem comemorar o 13 de maio". O coordenador é bem bicha. E discutir com ele é foda. Porque ele empina e pula alto. Eu sou bem sapatão. De modos que poderia acabar com os pulinhos dele na base do sopapo. Mas perdi, playboy. Ele é mais viado que eu sou fancha. Daí, me sentindo *a* escravocrata, calei a boca e cancelei a feira à revelia do CUCA. Eis que. Um garoto que é o líder do movimento negro aqui na cidade me procura. Ele tava pensando em fazer uma semana de palestras e gostaria que eu ajudasse no geral e desse uma palestra a respeito. Seriam 3 palestras e ele precisava da adesão da faculdade. Por conta da participação dos alunos. Meu chefe gostou da idéia e combinamos assim. Eu daria 0,5 ponto na minha disciplina pra quem participasse. E uma palestra sobre movimentos sociais. Eu fiquei BASTANTE feliz porque a DESPEITO dos dois historiadores, o movimento negro ia comemorar o 13 de maio. O coordenador "data branca" ficou horrorizado. E continuou dizendo. Que o movimento negro daqui não sabia das coisas. Bláblá. Desqualificou o movimento daqui. E eu fiquei pensando muito num lance que eu achei genial. E que eu descobri meio no final da minha dissertação. E acabei inserindo de última hora. Porque realmente me encantou. Uma discussão a respeito dos movimentos sociais serem MODELOS criados pelas ciências sociais. Pra darem conta de uma série de manifestações que acontecem na sociedade civil. Segundo essa linha, as ciências sociais INVENTAM os movimentos e passam a estudar a realidade como se eles existissem. E daí eles passam a existir. Porque esse garoto, por exemplo. Ele é negro. E todo consciente. E resolve criar o movimento negro aqui. Por que? Porque é o que ele ouve falar que existe. E quem fala? Historiadores. E assim por diante. Depois eu vi dizer que pensar assim é bem de direita e tal. Que é negar uma unidade de manifestações que possuem uma base comum bastante evidente. Blá again. O caso é. Quando eu vejo um garoto negro querendo celebrar 13 de maio e um historiador branco tentando impedir. Só posso me lembrar disso. E pensar que o historiador inventou o movimento e que agora quer que ele se comporte de acordo com a construção que faz sentido. Pra ele, historiador, é claro.

E eu disse pro garoto. Que eu não entendia do assunto. Ele insistiu bastante. E eu disse que o movimento feminista tinha um alinhamento comum e eu poderia fazer um pouco de transposição. E ele disse que seria per-fei-to. Daí tava olhando o folder. E ele colocou nome na minha palestra. Sabe que nome? A Abolição Inacabada. Vou matar esse moleque.

Eu tô cheia de erro ortográfico. Escrevi, num exercício pra aluno, extritamente. Com X. Juro por Deus. E é só um exemplo. Tô com milhares de erros ortográficos. Por erros, sempre me desculpo. Então antecipadamente, já peço.

 



Escrito por Mary W. às 11h18
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Hoje faz um ano que meu pai morreu. Eu fiquei a semana inteira com muita saudade dele. Primeiro por conta dessa história de Dilma. Depois porque eu realmente precisei falar um assunto burocrático com ele. E não teve jeito. São coisas diferentes. Saudade, falta e precisar falar. Daí eu li por aí. Num blog acho. Um comment dizendo que ah, como faz falta uma oposição do nível do Carlos Lacerda. E eu fiquei super nostálgica. Porque uma das minhas histórias favoritas com meu pai é essa. Que a gente viu o Carlos Lacerda em Paraty. Eu tinha dois anos só, na época. E minha mãe estava com meu irmão. E ele comigo. E ela estava um pouco na frente. Porque eu parava muito, segundo meu pai. E minha mãe entrou num hotel, que tinha umas lojas. E quando nós fomos entrar, fomos barrados. Porque só hóspedes que podiam e tal. E aí ficamos de fora. Na rua, brincando. Quando sai do hotel o Carlos Lacerda. E ele entrou num carrão e meu pai ficou extremamente sem ação. Daí o carro saiu, devagarzinho, naquelas ruas de pedra. E ele resolveu correr atrás do carro. E eu corri atrás dele, meu pai. Pra que correr atrás do Carlos Lacerda?, eu perguntava sempre que ele me contava isso. Pra xingar, pô. E daí ele floreava demais a história, dizendo que o Lacerda tinha brincado comigo e coisas assim. Só pra me encher, dizendo que eu era amiga do cara desde pequenininha. Eu nunca prestava atenção nos detalhes dessa história. Quantas pessoas estavam no staff, como ele percebeu etc. Porque ele sempre me contava. Toda vez que alguém mencionava ter estado num lugar histórico, ele falava e nós que vimos o Carlos Lacerda?. Ele fingia não curtir mas adorava. Tem um discurso do Lacerda que ele repetia bastante. Sobre a ingratidão. Que foi feito quanto ele perdeu a eleição na Guanabara ou uma coisa assim. E meu pai sabia um longo trecho. E sempre dizia. Eu fiquei pensando nessa minha história em Paraty. E que eu precisava muito do meu pai pra compor essa memória. E que quando o Lacerda foi embora, ele me pegou no colo e ficamos festejando e que quando minha mãe saiu nós estávamos eufóricos na rua. Mas eu não me lembro. E eu precisava dele pra me lembrar. E pra fazer com que fosse *o* acontecimento histórico da minha vida. Quem mais daria tanta importância pra esse encontro? Eu sei que no ano passado, a essa hora, eu estava acordando pra pegar um ônibus pra ir vê-lo no hospital. Era Dia das Mães. Fiquei até a noitinha. Voltei pra casa e fiquei no computador. Quando era 1 da manhã, tocou a campainha. E aí quem não se lembra mais é ele. O início das coisas que ele não chegou a ficar sabendo. Pai, a prefeita está no seu funeral. Essa foi a primeira coisa que eu realmente senti não poder comentar com ele. Ele NUNCA usava a palavra velório. Enfim. Eu não sou muito apegada a datas. Mas tô meio triste hoje.

Óbvio. Que eu tenho que dar uma palestra hoje, por conta de ser 13 de maio. Na boa. TUDO eu nessa faculdade. Que saco. Eu vou contar a história dessa palestra daqui a pouco.



Escrito por Mary W. às 09h54
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